VI
Estou só. Mas é-me impossível gritar – para quê? Ás vezes, raramente, o grito sobe, entala-se-me na garganta e o mundo recua bruscamente para uma estranheza absurda. Mas é raro e tudo reflui de novo como uma pedra que subisse muito alto e desistisse por fim. E ainda bem, porque os sentimentos são um vício – ou não? O povo diz “o comer e o ralhar vai do começar”. Mas tudo vem do começar: o amor, o ódio, o choro, a ternura, o medo. E quando caímos nisso, o que nos sustenta não é o objeto do sentimento, mas o próprio sentimento. Porque o objeto é um pretexto, e o sentimento é o prazer de nós próprios, que somos pretextos – mas será assim? Oh, que importa. As “ideias” são murros um pouco mais civilizados – e tu estás velho e estás só, já não podes esmurrar ninguém. Abre os olhos totalmente e vê. Aguenta o impacto da vida e vence-a. Recupera-a desde as raízes, obscura, lenta, verdadeira. E se ela é a tua invenção, esquece tudo, inventa-a desde o início, cospe na que te deram – de que é que serve? Ou estarás tu envenenado para sempre? [...]
Vergílio Ferreira, Alegria Breve
9 de outubro de 2009
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